Que a Igreja em Portugal não andava bem todos sabíamos. Agora que o
Papa estivesse tão bem informado e nos desse um resumo tão pequeno
mas quão completo parece-me que foi uma real surpresa para muito boa
gente, católica ou não. Os católicos terão ficado preocupados e
quase que apetece acrescentar: só agora? Os não católicos e, porque
não alguns – bastantes? – católicos,
igualmente, ficaram a esfregar as mãos de contentamento pelo que
certas pessoas têm apelidado de “puxão de orelhas” aos bispos
portugueses. É natural que um Chefe esteja bem informado e saiba o
que se passa nas suas comunidades. Do mesmo modo, ninguém se espanta
que o Papa queira ouvir, de viva voz, o que os seus “mandatários”
têm para lhe contar relativamente aos quinhões respectivos e qual a
análise que fazem da situação dos mesmos e as propostas que terão em
mente para uma resposta adequada para a resolução pronta da mesma
que, no nosso caso, temos de reconhecer, não é brilhante e tem vindo
a degradar-se.
Embora existam pastorais variadas, equilibradas e vontade de as
aplicar com êxito, verifica-se que, por vezes, por tanto querer,
acaba-se por mal haver; tantas coisas se querem efectuar e que ficam
pelo caminho; tantos projectos aparecem e que acabam por não passar
dessa fase. Constata-se, olhando para o interior das igrejas que a
grande maioria dos fiéis presentes nas celebrações é constituída por
pessoas já bem entradas nos anos, quando não com muitos outros já
vividos. Apesar das muitas actividades propostas e concorridas e
dedicadas à juventude, cada vez se tem mais a sensação de ser
necessário gritar: Jovens precisam-se!
Existem milhentas organizações da igreja, muitas vezes com o mesmo
objectivo e modo de actuação e, fundamentalmente, quase sempre e
salvo algumas raras e valiosas excepções, constituídas sempre pelas
mesmas pessoas, quase todas na casa dos sessenta, setenta, quando
não dos oitenta anos e que tentam perpetuar a Missão.
É agradável verificar que a Eucaristia é partilhada por gente jovem,
igualmente, mas apetece perguntar: onde se encontram as crianças, os
adolescentes e, nalguns casos, os adultos jovens ou não que
frequentaram durante não sei quantos anos a catequese? Há pouca
qualidade nos catequistas? Há desinteresse das famílias? A Igreja
não consegue criar mecanismos que fixem esses pequenos e mais
crescidos?
M. M. Costa Santos, da UCP-Braga, em
extracto publicado no nº 1123 da Agência
Ecclesia de 20 de
Novembro de 2007, resume as conclusões do Santo Padre a três pontos:
“seleccionar as questões (crise), propor um núcleo duro (cinto de
segurança), e apresentar uma escola (cátedra)”. Se bem entendi, da
selecção das questões, e parafraseando Bento XVI, a crise da Igreja
em Portugal “(é) a falta de participação
na vida comunitária e o estilo de organização da comunidade
eclesial portuguesa e a mentalidade dos
seus membros, a função do clero e do laicado,
a discussão sobre qual dos membros da comunidade seja o primeiro, a
eficácia dos percursos de iniciação actuais com a maré crescente de
cristãos não praticantes.”
Concordando em absoluto com estas observações, razão pela qual, pelo
meu modo de ver e viver a sociedade comunitária, proponho que a
formação do tal núcleo duro chamado “cinto de segurança”, tenha ele
o nome que tiver, perfeitamente indiferente, nas Dioceses deve ser
constituído de forma tripartida e paritária por sacerdotes,
consagrados e consagradas e leigos e leigas. Não haverá uma simples
escolha para as nomeações dos elementos dos três ramos citados, mas
uma verdadeira eleição inter-pares com
vários grupos etários e, que poderá, eventualmente ser ratificada
pelo Bispo. Estes “cintos de segurança” funcionariam em vários
grupos de trabalho e os seus elementos não poderiam acumular, agindo
exclusivamente naquele para o qual tivessem sido eleitos.
Já várias vezes escrevi nas colunas de “A Seara”, lá “Do Alto do
Campanário”, que a Igreja não é só formada por sacerdotes nem só por
leigos, que é uma Só e que uns e outros estão integrados no Corpo
Místico de Cristo, evidência que todo o católico sabe, tão bem ou
melhor do que eu, e que é quase displicente relembrar. As actuações
de uns e de outros, com funções distintas nalguns pontos, é que, por
vezes, fazem parecer que são “jogadores de equipas diferentes”. Tal
parecença é totalmente descabida porque todos são baptizados!
Evidência que o articulista citado não deixa de referir
A eclesiologia de comunhão proposta por
M. M. Costa Santos no caminho para Cristo acaba por girar em torno
da Virgem Maria, a Cátedra. Não é isto que nós, os Carmelitas
tentamos fazer?
Setúbal, 2007-12-18
J. A. PARDETE
FERREIRA