As cinzas e o Carmelo

         Notícias da Ordem
 
 

 CARMELO

   I

Nossa Senhora do Carmo,
Que por Deus foste bendita,
Para o combate me armo
C’o Menino e sua fita.

   II

Fita do Escapulário
Que a nós por bem nos deste,
Como o Terço do Rosário
Rezado com as nossas vestes.

   III

O Carmelo é nossa Vida,
Nele as nossas Orações
Vão p’ra ti ó Mãe querida
Que enches os corações.

  IV

Vem Senhora da minha alma,
Guarda-me bem junto a Ti.
A vida podes levá-la
P’ró Menino qu’inda não vi.

 

06.09.15

J. A. PARDETE FERREIRA

     
 

 
     
 

  A PROPÓSITO DA RECENTE VISITA AD LIMINA DOS BISPOS

Que a Igreja em Portugal não andava bem todos sabíamos. Agora que o Papa estivesse tão bem informado e nos desse um resumo tão pequeno mas quão completo parece-me que foi uma real surpresa para muito boa gente, católica ou não. Os católicos terão ficado preocupados e quase que apetece acrescentar: só agora? Os não católicos e, porque não alguns – bastantes? – católicos, igualmente, ficaram a esfregar as mãos de contentamento pelo que certas pessoas têm apelidado de “puxão de orelhas” aos bispos portugueses. É natural que um Chefe esteja bem informado e saiba o que se passa nas suas comunidades. Do mesmo modo, ninguém se espanta que o Papa queira ouvir, de viva voz, o que os seus “mandatários” têm para lhe contar relativamente aos quinhões respectivos e qual a análise que fazem da situação dos mesmos e as propostas que terão em mente para uma resposta adequada para a resolução pronta da mesma que, no nosso caso, temos de reconhecer, não é brilhante e tem vindo a degradar-se.

Embora existam pastorais variadas, equilibradas e vontade de as aplicar com êxito, verifica-se que, por vezes, por tanto querer, acaba-se por mal haver; tantas coisas se querem efectuar e que ficam pelo caminho; tantos projectos aparecem e que acabam por não passar dessa fase. Constata-se, olhando para o interior das igrejas que a grande maioria dos fiéis presentes nas celebrações é constituída por pessoas já bem entradas nos anos, quando não com muitos outros já vividos. Apesar das muitas actividades propostas e concorridas e dedicadas à juventude, cada vez se tem mais a sensação de ser necessário gritar: Jovens precisam-se!

Existem milhentas organizações da igreja, muitas vezes com o mesmo objectivo e modo de actuação e, fundamentalmente, quase sempre e salvo algumas raras e valiosas excepções, constituídas sempre pelas mesmas pessoas, quase todas na casa dos sessenta, setenta, quando não dos oitenta anos e que tentam perpetuar a Missão.

É agradável verificar que a Eucaristia é partilhada por gente jovem, igualmente, mas apetece perguntar: onde se encontram as crianças, os adolescentes e, nalguns casos, os adultos jovens ou não que frequentaram durante não sei quantos anos a catequese? Há pouca qualidade nos catequistas? Há desinteresse das famílias? A Igreja não consegue criar mecanismos que fixem esses pequenos e mais crescidos?

M. M. Costa Santos, da UCP-Braga, em extracto publicado no nº 1123 da Agência Ecclesia de 20 de Novembro de 2007, resume as conclusões do Santo Padre a três pontos: “seleccionar as questões (crise), propor um núcleo duro (cinto de segurança), e apresentar uma escola (cátedra)”. Se bem entendi, da selecção das questões, e parafraseando Bento XVI, a crise da Igreja em Portugal “) a falta de participação na vida comunitária e o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros, a função do clero e do laicado, a discussão sobre qual dos membros da comunidade seja o primeiro, a eficácia dos percursos de iniciação actuais com a maré crescente de cristãos não praticantes.”

Concordando em absoluto com estas observações, razão pela qual, pelo meu modo de ver e viver a sociedade comunitária, proponho que a formação do tal núcleo duro chamado “cinto de segurança”, tenha ele o nome que tiver, perfeitamente indiferente, nas Dioceses deve ser constituído de forma tripartida e paritária por sacerdotes, consagrados e consagradas e leigos e leigas. Não haverá uma simples escolha para as nomeações dos elementos dos três ramos citados, mas uma verdadeira eleição inter-pares com vários grupos etários e, que poderá, eventualmente ser ratificada pelo Bispo. Estes “cintos de segurança” funcionariam em vários grupos de trabalho e os seus elementos não poderiam acumular, agindo exclusivamente naquele para o qual tivessem sido eleitos.

Já várias vezes escrevi nas colunas de “A Seara”, lá “Do Alto do Campanário”, que a Igreja não é só formada por sacerdotes nem só por leigos, que é uma Só e que uns e outros estão integrados no Corpo Místico de Cristo, evidência que todo o católico sabe, tão bem ou melhor do que eu, e que é quase displicente relembrar. As actuações de uns e de outros, com funções distintas nalguns pontos, é que, por vezes, fazem parecer que são “jogadores de equipas diferentes”. Tal parecença é totalmente descabida porque todos são baptizados! Evidência que o articulista citado não deixa de referir

A eclesiologia de comunhão proposta por M. M. Costa Santos no caminho para Cristo acaba por girar em torno da Virgem Maria, a Cátedra. Não é isto que nós, os Carmelitas tentamos fazer?

 

Setúbal, 2007-12-18

 J. A. PARDETE FERREIRA