EXCERTOS DA HISTÓRIA DA VENERÁVEL ORDEM TERCEIRA DO CARMO DE SETÚBAL

Parte III

 

 
 

Chegados ao Natal, Natividade do Senhor ou ainda, provavelmente com mais propriedade, Encarnação, vamos seguir o segundo Capítulo do Evangelho segundo S. Lucas: o édito de César Augusto, obrigando uma grávida próximo do termo a uma penosa viagem de Nazaré a Belém, a fim de se recensear juntamente com José. É conhecido o Presépio vivo onde, por não haver lugar na hospedaria, tendo dado à luz o seu Filho, o envolveu em panos e o recostou numa manjedoura. Entretanto, o anjo do Senhor apareceu a uns pastores a quem diz: “… anuncio-vos uma grande alegria… Hoje na cidade de David nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor… “.

No desenvolvimento lógico da Encarnação do Verbo, passados oito dias, de acordo com a Lei de Moisés, cumprido o tempo da purificação (Lucas 2, 21 – 25), Jesus foi levado a Jerusalém para ser apresentado ao Senhor e a Este oferecido por ser o filho primogénito e ser circuncidado, o que era acompanhado pela oferta de um par de rolas ou pombas, conforme as possibilidades económicas dos pais. Voltando a Lucas 2, 31 e 32: “Depois voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.

Entretanto, sabemos do Evangelho segundo Mateus 2, 3-15, como o anjo do, Senhor aparecendo em sonhos a José lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procura o menino para o matar. E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto, permanecendo ali até à morte de Herodes”. Imagine-se nova provação para Maria: a ansiedade, o cansaço, a incerteza, a incomodidade, os cuidados com o Filho e tudo o mais que se possa imaginar. Ainda de Mateus 2, 19-23, após a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu novamente a José e disse-lhe: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino”. Perante o perigo de Arquelau, filho de Herodes, ter subido ao trono, Mateus conta-nos ainda que José, advertido em sonhos, se retirou para a Galileia, para a cidade de Nazaré. E Maria, obediente, seguia José e cuidava do menino.

Como propusemos, o passo importante que se seguiu foi o episódio das Bodas de Caná, para o qual entendemos apoiar-nos em João, 2, 1-11. Caná está, como Nazaré, situada na Galileia e Jesus já tinha escolhido os discípulos que, com Ele e Maria, também estavam presentes na boda. Maria foi a grande impulsionadora do primeiro milagre público de Jesus: a transformação de água em vinho, esse vinho que é indispensável para a celebração da Eucaristia.

Segue-se o Acompanhamento da chamada Vida Pública de Jesus, onde a sua presença, nem sempre evidente nos escritos, se adivinha ou aparece discretamente descrita, num crescendo que se torna particularmente visível no que hoje chamamos o tempo da Quaresma, no Calvário, Crucifixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Este acompanhamento faz-se de forma discreta, silenciosa e acompanhada de intenso sofrimento. A sua Fé é uma constante e ela faz um caminho paralelo ao do Filho para o Pai. Chegamos ao Calvário com sinais de que Maria se tenha encontrado com Jesus durante Via Sacra, o que, embora não provado, é grandemente provável. Maria quis mostrar ao Filho que estava com Ele e como Ele sofria. Do Getsémani ao Gólgota, Jesus foi humilhado e sofreu e sua mãe acompanhou-o e igualmente sofreu. Sofreu por Ele como continua a sofrer por toda a humanidade. E Jesus foi crucificado. Do alto da cruz, entre outras santas mulheres, Jesus, como nos conta João, 19, 26 e 27, “… ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: - Mulher, eis o teu filho! Depois, disse ao discípulo: - Eis a tua mãe! E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua”. E…Jesus disse:”Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. (João, 19, 30). Segue-se “La Pietá” que, no entanto, não vem descrita em nenhum dos Evangelhos, que apenas nos dizem que foi José de Arimateia quem teve a permissão e o cuidado de sepultar Jesus (Mateus, 27, 57-60; Marcos, 15, 43-45; Lucas, 23, 50 – 53; João, 19, 38 – 40). A cerimónia da entrada no túmulo foi observada por Maria Madalena e por Maria, mãe de José (Mateus, 27, 61 e Marcos, 15, 46).

 

J. A. PARDETE FERREIRA

 

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